“Há cerimónias que distinguem. E há cerimónias que, para além de distinguir, revelam.
Esta, para mim, é uma dessas cerimónias.
Porque revela, com clareza, quem está verdadeiramente ao lado do desporto português quando chega a hora de apoiar, de construir e, tantas vezes, de garantir que ele continua a andar para a frente.
E é por isso que estarmos hoje aqui não é um mero gesto protocolar. É um ato de reconhecimento. É um ato de justiça. É, também, uma afirmação política sobre quem tem segurado o desporto nacional.
Permitam-me, antes de mais, uma palavra de agradecimento à Câmara Municipal de Sintra, na pessoa da Vice-Presidente, Andreia Bernardo, pela forma como nos acolhe. Vemos com bons olhos a ambição de colocar Sintra no mapa, também no panorama desportivo nacional e, nesse caminho, pode contar com as federações desportivas e com a Confederação do Desporto de Portugal.
Hoje celebramos a gratidão. Um momento de agradecimento individual, mas também coletivo. Porque cada federação que hoje distingue uma personalidade ou uma entidade está a dizer algo muito importante ao país: que o desporto português não se constrói sozinho, não se sustenta sozinho e, acima de tudo, também não sobrevive sozinho.
Há uma verdade que importa afirmar com frontalidade: quando o Estado central falha, e tem falhado demasiadas vezes, são estas instituições, estas empresas, estas autarquias, estes dirigentes e estes agentes desportivos que seguram o dia a dia das federações e das modalidades. São eles que ajudam a pagar equipamentos, deslocações, inscrições e, muitas vezes, a própria sobrevivência das estruturas desportivas. São eles que evitam que o sistema pare.
E, por isso, esta cerimónia tem um significado profundo.
Porque o desporto desenvolve-se por etapas.
Desenvolve-se quando conseguimos democratizar o acesso à prática e chegar a mais crianças e a mais jovens.
E, para isso, temos de estar ligados às escolas.
Desenvolve-se quando conseguimos detetar e fazer crescer os maiores talentos.
E, para isso, temos de estar ligados aos clubes.
Desenvolve-se quando conseguimos robustecer os quadros competitivos, do plano local ao regional e ao nacional, multiplicando oportunidades de prática e de competição.
E, para isso, temos de estar ligados às associações regionais e territoriais.
Desenvolve-se quando garantimos que representar Portugal internacionalmente é uma consequência do mérito e nunca uma possibilidade condicionada pelos recursos financeiros de cada família.
E, para isso, temos de deixar de empurrar esse custo para as famílias e assumi-lo como responsabilidade do sistema.
Em todas estas etapas há um denominador comum: as federações desportivas. São elas as entidades de cúpula do desporto português. São elas que organizam, estruturam e fazem crescer cada modalidade. São elas que articulam a base com o topo. São elas que transformam potencial em percurso, percurso em rendimento, e rendimento em excelência.
Mas importa dizê-lo com clareza: é precisamente com as federações que o Estado central e os sucessivos governos mais têm falhado.
Ao longo dos últimos anos, a prioridade política foi, quase sempre, reforçar o investimento nos projetos olímpico e paralímpico. Esse investimento foi importante e permitiu colocar Portugal em linha com a média europeia no apoio à preparação da elite. Mas esse caminho, por si só, é manifestamente insuficiente.
O que hoje o desporto exige ao Governo é outra coragem: investir na atividade regular das federações desportivas e no desenvolvimento estrutural das modalidades.
Porque é precisamente nas etapas anteriores que o sistema tem ficado por reforçar.
Na base e deteção de talentos.
Na profundidade competitiva nacional.
Na qualificação de treinadores, árbitros e juízes.
E no fortalecimento dos clubes, das associações regionais e territoriais e das próprias federações.
O país tem de ouvir com clareza:
Ao longo dos últimos 30 anos, as federações desportivas perderam poder de compra e capacidade de investimento, enquanto as suas responsabilidades cresceram de forma significativa.
Cresceram no desporto feminino, com quadros competitivos que há 30 anos praticamente não existiam e com seleções nacionais que hoje competem com regularidade.
Cresceram no número de competições internacionais, mais exigentes e muitas vezes disputados em geografias mais distantes, tanto nos escalões de formação como nas seleções seniores.
E cresceram também porque as federações são hoje vítimas do seu próprio sucesso: quanto melhores resultados apresentam, mais atletas e mais seleções nacionais conquistam o direito de competir internacionalmente ao mais alto nível, e mais recursos são necessários para assegurar essas representações com dignidade.
O problema é que os apoios do Estado não acompanharam essa evolução. E isto não é sustentável. Não é justo. E não pode continuar a ser normalizado.
Investir quase exclusivamente no topo é olhar para o imediato.
É querer medalhas hoje, sem garantir atletas amanhã.
É celebrar a elite sem proteger a base que a torna possível.
E isso cria um estrangulamento estrutural no futuro do desporto nacional.
Se queremos continuar a ter sucesso internacional daqui a 8, 10 ou 12 anos, então temos de investir muito mais abaixo da linha de chegada. Temos de investir no início do percurso. Na democratização do acesso. Na ligação entre desporto escolar e desporto federado. Na solidez dos quadros competitivos. Na capacidade organizativa de quem está todos os dias no terreno.
A boa notícia é que hoje as federações desportivas não se limitam a identificar problemas. Apresentam soluções concretas e equilibradas. Talvez nunca como agora tenham existido propostas tão objetivas e tão “chave na mão” em cima da mesa do Governo. Apresentámos uma proposta de revisão da distribuição das receitas das apostas desportivas, aprovada por unanimidade por todas as federações desportivas, que permitiria reforçar o sistema em cerca de 15 milhões de euros por ano, e apresentámos também uma proposta de revisão do enquadramento fiscal aplicável ao desporto, para criar condições mais favoráveis à sustentabilidade das organizações desportivas.
Outra oportunidade que o país não pode desperdiçar é o PTRR. O desporto não pode voltar a ficar de fora, como aconteceu com o PRR. A Confederação do Desporto de Portugal apresentou contributos concretos para reforçar a resiliência do setor e elevá-lo a outro patamar de organização e profissionalismo. Porque o desporto é estrutural e tem de estar no centro das políticas públicas.
Mas enquanto esse reconhecimento político não chega com a dimensão necessária, há entidades que nunca falharam ao desporto português.
E entre essas entidades, as autarquias ocupam um lugar absolutamente central.
Em todo o país, são os municípios e as freguesias que garantem as condições necessárias para que a atividade desportiva aconteça. São as autarquias que conhecem a realidade desportiva e que percebem que o desporto é uma ferramenta decisiva de desenvolvimento local, coesão social e formação humana.
É por isso que a Confederação do Desporto de Portugal decidiu distinguir, como Personalidade/Entidade do Ano 2025, a Associação Nacional de Municípios Portugueses.
Fazemo-lo em sinal de reconhecimento e de gratidão.
Gratidão pelo papel verdadeiramente crucial que as autarquias têm desempenhado no apoio ao desporto nacional. Gratidão por serem, tantas vezes, o parceiro mais próximo e consequente das federações, das associações regionais e territoriais e dos clubes. Gratidão por ajudarem a manter viva a prática desportiva organizada.
Esta distinção é, por isso, também uma homenagem a todos os municípios portugueses que, independentemente da dimensão, compreendem diariamente que apoiar o desporto não é um luxo. É uma responsabilidade pública. É um investimento no presente e no futuro das comunidades.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
O desporto português precisa de reconhecimento, sim.
Mas precisa, acima de tudo, de visão. Precisa de coragem política.
Precisa de investimento estrutural.
E precisa de nunca esquecer que sem base não há topo, sem desenvolvimento não há resultados e sem federações fortes não haverá futuro sustentável para as modalidades.
A todos os distinguidos desta noite, o nosso muito obrigado.
Em nome da Confederação do Desporto de Portugal, deixo-vos uma palavra de profundo reconhecimento. O desporto português é melhor por vossa causa.”
Daniel Monteiro
Presidente da Confederação do Desporto de Portugal




