O presidente da Confederação do Desporto de Portugal (CDP), Daniel Monteiro, interveio na abertura da conferência «Desporto em Portugal: Que futuro queremos construir?», realizada no dia 21 de outubro, no Templo da Poesia, em Oeiras. Organizada pela CDP, em parceria com o Record e o Jornal de Negócios, a iniciativa reuniu a comunidade desportiva e responsáveis políticos para debater os custos da prática e as condições necessárias para um Desporto mais acessível e competitivo.
Leia, de seguida, a intervenção na íntegra:
«Senhor Presidente da Assembleia da República,
Senhoras e Senhores Deputados,
Senhoras e Senhores Presidentes de Federações, Associações e Clubes,
Caros amigos do Desporto,
Quero começar por agradecer. Ao Senhor Presidente da Assembleia da República, cuja presença valoriza o Desporto e muito nos orgulha. Ao Record e ao Jornal de Negócios, na pessoa do Sérgio Krithinas e da Diana Ramos, por esta parceria e por trazerem o Desporto para o centro do debate público. À Câmara Municipal de Oeiras, por nos abrir as portas deste espaço. A todos os oradores. Aos deputados de todos os grupos parlamentares que aceitaram vir a debate. E a vós, federações, associações, clubes, dirigentes, treinadores e atletas: é por vocês que esta conferência existe.
Há poucos dias, vimos o Iuri Leitão sagrar-se campeão do mundo de omnium. E vimo-lo chorar. Um choro de pura felicidade, de quem deixou tudo na pista e elevou o nome de Portugal ao patamar mais alto. É isso que queremos para o Desporto português: ver aquele choro mais vezes. Tantas que se torne rotina. Que se torne, permitam-me a palavra, uma monotonia. É possível. Mas não acontece por acaso. Acontece, também, por um conjunto de decisões que tornam estes feitos possíveis.
Mas sejamos claros: os Iuris não caem do céu. Para termos mais atletas com as nossas cores num pódio, precisamos de milhares de crianças e jovens a treinar todos os dias para alguns deles poderem vir a ser os melhores do mundo. A chave está aí.
Sejamos justos com o que está bem. Nos últimos 20 anos, o investimento no topo foi decisivo. O apoio à preparação olímpica e paralímpica melhorou muito e proporcionou estabilidade e previsibilidade a atletas, que não existia. E os resultados estão à vista: quando há condições, o talento português chega ao topo do mundo. Mas esse apoio chega a um universo reduzido, de cerca de 200 atletas. E Portugal tem mais de 860 mil praticantes federados.
Por isso digo-vos, com toda a clareza: não podemos continuar a viver apenas no tempo do topo. Agora, tem de ser o tempo da base. Da base e de todos os degraus que levam ao topo: o clube, a formação, a competição regular, as seleções. Porque só com a escada completa é que abrimos caminho para que mais atletas cheguem lá acima.
A proposta de Orçamento do Estado para 2027 prevê 76 milhões de euros para o Desporto. É um sinal político que saudamos, e vamos saudá-lo sempre que o Desporto for tratado como prioridade. Mas não nos peçam para aplaudir um número sem saber onde ele chega. Um Orçamento mede-se pelo que muda no terreno.
E no terreno, as contas são outras. Os apoios do IPDJ às federações, inscritos nas transferências correntes, sobem 0,3%. A inflação prevista pelo próprio Governo é de 2,9%. Qualquer família portuguesa percebe o que isto significa: quando os preços sobem mais depressa do que o ordenado, o carrinho das compras sai mais leve. E o carrinho de uma federação leva competições, deslocações, treinadores, árbitros e seleções. Não é reforço. É um Orçamento de continuidade. E o Desporto precisava de mais.
Deixem-me tornar isto concreto. Vou falar-vos de duas federações. Duas federações de modalidades olímpicas. A primeira recebe 180 mil euros de investimento público. Desses, 140 mil vão para as seleções nacionais. Sobram 40 mil euros para desenvolver a modalidade no país inteiro, durante um ano. Pergunto: como? Com quê? A segunda tem um orçamento de 50 mil euros. Cinquenta mil euros. Que modalidade se vai desenvolver? Como? Com quê? Estas são instituições que deviam estar a organizar e a diversificar competições e a desenvolver os próximos heróis que fazem as crianças querer praticar desporto. É com isto que os queremos encontrar? De que serve continuarmos a investir, a calçar com qualidade os 200 atletas que se encontram no topo da nossa elite desportiva, se daí para baixo, tudo o resto se encontra descalço?
A base não é um detalhe. É o alicerce. Estamos a perder demasiados jovens pelo caminho. O abandono até aos 18 anos agrava-se de ano para ano. E 68% dos portugueses nunca praticam desporto. Isto não é só um problema desportivo. É um potencial problema para a saúde de milhares de jovens – seja ela física ou mental. O Desporto é o melhor remédio que o Estado pode receitar, para o corpo e para a mente. O que não investimos hoje na prática desportiva, podemos pagar amanhã nos hospitais.
E há mais. Numa geração que cresce agarrada a um ecrã, o Desporto é dos poucos lugares onde um jovem ainda aprende a perder, a ganhar, a ser solidário e a fazer parte de uma equipa. Mas esses jovens precisam de um clube aberto às sete da tarde, de um treinador qualificado, de um pavilhão que funcione. E de famílias que não tenham de pagar do próprio bolso o percurso dos filhos. Querer campeões sem investir na base e em todo este percurso é construir a casa pelo telhado.
Mas a Confederação e as federações desportivas não vêm aqui só com diagnósticos. Vêm com soluções. E essa solução tem nome: Fundo de Desenvolvimento Desportivo. Mais 7,5 pontos percentuais da receita do Imposto Especial sobre o Jogo Online afetos ao Desporto, geridos pelo IPDJ. 12 a 15 milhões de euros por ano para a atividade regular das federações. Sem aumentar impostos. Sem pedir um cêntimo a mais ao Orçamento do Estado. Pedindo apenas parte de uma receita que é gerada pelo próprio Desporto. Com critérios claros, exigentes e escrutináveis.
Digo-o sem rodeios: se há uma medida capaz de levar o Desporto português ao patamar que merece, é esta. E digo também, com a mesma franqueza: esta mudança estrutural está nas mãos do poder político. Já estava no ano passado. A Confederação volta a trazê-la este ano, ainda com mais convicção nos efeitos que pode ter.
Porque este Fundo é a diferença entre pedir aos pais que paguem a carreira dos filhos ou termos federações capazes de a apoiar. É a diferença entre termos quadros competitivos regionais e locais, com oportunidades para mais atletas, ou vermos federações acabar com competições por impossibilidade financeira. É a diferença entre cumprirmos plenamente, ou não, o artigo 79.º da Constituição: todos têm direito à cultura física e ao desporto. E, para federações como as duas de que vos falei há pouco, é simplesmente a diferença entre sobreviver e desenvolver.
Não estamos a pedir um cheque. Estamos a apresentar um modelo. Modelo esse que foi aprovado por unanimidade pelas federações em Cimeira de Presidentes. Temos também várias outras propostas, de equiparação fiscal do Desporto à Cultura, de valorização do dirigente benévolo ou de proteção do pós-carreira dos atletas. Todas entregues aos responsáveis políticos há, pelo menos, 1 ano. Mas podem ter a certeza: esta é a bala de prata capaz de catapultar o Desporto português como todos queremos. Este é o desejo maior e unânime de todas as federações desportivas, para que o nosso Desporto se desenvolva e cresça.
Sei que há matérias onde o consenso é difícil. É a democracia a funcionar. Mas já que vamos ouvir hoje representantes dos grupos parlamentares, eu pergunto desde já: haverá melhor forma de homenagear os atletas que unem o país do que o país político se unir à volta de soluções para o Desporto? Esta proposta não tem cores políticas nem ideológicas. É do Desporto. E o debate do Orçamento é o momento certo para lhe voltar a dar vida.
Ao Governo e a todos os partidos digo: contem connosco. A Confederação do Desporto de Portugal e as federações são parceiras. Porque um recorde de verba só serve o Desporto se acabar traduzido também num recorde de impacto.
E porque o que queremos, no fundo, é simples: que o choro de alegria do Iuri por poder festejar com a bandeira de Portugal deixe de ser exceção. Que se torne rotina. Que se torne numa boa monotonia. E isso só acontece se formos capazes de criar as condições para que muitos mais milhares de jovens pratiquem desporto e, desses, alguns possam lá chegar. É esse o objetivo da CDP. Façamos disso o nosso objetivo comum. Muito obrigado a todos».




